Um herói quase acidental

Artigo originalmente publicado na Visão-História, n.º 4, Fevereiro de 2009. Revisto e reeditado em maio de 2014
Aqui se conta a história possível de Aníbal Augusto Milhais (Milhões), o único soldado raso a regressar da Grande Guerra condecorado com a Ordem de Torre e Espada

Por Francisco Galope

O silvo estridente das balas e as granadas que explodiam à sua volta não impediram o soldado transmontano de se envolver numa acesa discussão com um oficial.

A foto do seu processo individual

Foto do processo individual de Aníbal Milhais (Fonte: Arquivo Geral do Exército)

Os boches (alemães, em calão) estavam a uns 200 metros e a ordem era para todos retirarem. Ele insistia em ficar.

– Fujam todos daqui, que eu cubro a retirada.
– Tu estás a desobedecer. Ainda vais a Conselho de Guerra – replicou o oficial.

Ameaçado com Tribunal Militar, logo ele, Aníbal Augusto Milhais, que adotara, como lema «As ordens militares ouvem-se em sentido e cumprem-se em passo de corrida».

O certo é que, naquele dia 9 de Abril de 1918, durante a batalha dita de La Lys, ele ficou e cobriu a retirada dos seus camaradas portugueses, escoceses e ingleses. Salvou assim a vida a muita gente, arriscando a sua própria. Mas também ele escapou sem um arranhão para poder contar a história.
Em vez de ser levado a Conselho de Guerra, foi aclamado herói nacional, ostentando no peito, entre outras, a mais alta condecoração do País: a Ordem de Torre Espada do Valor, Lealdade e Mérito. Afinal, aquele rapaz franzino e baixote fizera mais, muito mais, do que o dever militar lhe impunha. A façanha tornou-o célebre, com documentos oficiais do Corpo Expedicionário Português (CEP) a descrevê-lo como «o herói de La Couture». Para a História e para o povo, ficaria o Soldado Milhões. Mais adiante saberemos porquê.
A sua caderneta militar e os documentos que oficializam as condecorações justificam tais honrarias. No registo oficial e seco da burocracia militar escreveu-se que o soldado com a placa de identidade 64 189 revelou «extraordinária bravura e coragem, efectuando o exemplo vivo de valentia e realizando voluntariamente a defesa do seu pelotão. Em Huit Maisons atacou com grande vigor o avanço do inimigo, não abandonando o posto senão quando portugueses e escoceses já tinham retirado, salvando alguns destes de caírem nas mãos do inimigo, pois protegeu a retirada de todos, manejando a sua metralhadora com valor, lealdade e mérito indiferente à artilharia e metralhadoras inimigas».
O louvor não menciona o frio, a fome, nem o terror. A sua neta Leonida Milhões lembra-se de que ele não gostava de falar da guerra, e de que quando contava histórias da trincheira era um exímio contador, fazia-o com uma lágrima no canto do olho. Certo dia, no início da década de 60, quando António Guilhermino Pires, um parente seu, o desafiou a contar-lhe a sua epopeia na Flandres para que ficasse registada em fita magnética, fez-se rogado e disse que tudo era velho como ele. Num artigo que publicou na revista salesiana Juventude (em 1963), António Guilhermino Pires lembra que, ao confrontar o interlocutor com o argumento «recordar é viver», ouviu:

– Como se podem viver coisas de morte sem morrermos um bocadinho?»

RESISTIR EM HUIT MAISONS
A 9 de Abril de 1918, quatro horas depois de terem desencadeado a sua tempestade de aço e fogo sobre as nossas forças, as tropas alemãs começavam a conquistar as posições portuguesas de primeira linha. As unidades de reserva da 2.ª Divisão de Infantaria tiveram de acorrer à linha intermédia para cobrir a retirada. Uma dessas unidades foi o Batalhão de Infantaria (BI) n.º 15, em cuja 4.ª Companhia servia o metralhador Aníbal Augusto Milhais.
Segundo os registos do capitão Conceição dos Santos, que foi alferes nesse batalhão, dois pelotões daquela companhia num total de 80 a 90 homens foram parar «por erro de itinerário» ao reduto de Huit Maisons, onde já acorrera um importante núcleo de forças escocesas.
O major britânico que comandava o posto não perdeu tempo. Dividiu os dois pelotões em vários grupos, que distribuiu pela trincheira no flanco direito daquela posição. Aí foram também colocadas as duas guarnições de metralhadoras ligeiras, uma das quais encabeçada por Milhais.
Eram 10 e meia da manhã quando, ainda a coberto do nevoeiro, surgiram os primeiros grupos da infantaria germânica.

Um soldado português morto (Fonte: Stahlgewitter.net)

Um soldado português morto (Fonte: Stahlgewitter)

O fogo das forças luso-britânicas é cerrado, e as metralhadoras prestam, segundo a descrição, «óptimos serviços». A infantaria alemã investe em vagas sucessivas e emprega morteiros e pequenas peças de artilharia. O reduto resiste há duas horas, quando os alemães aparentam iniciar um movimento envolvente.
Para evitar um cerco, o major britânico dá ordens para uma retirada em pequenos grupos, para voltarem a concentrar-se a uns quilómetros dali, em La Fosse. Num manuscrito guardado no núcleo museológico do Regimento de Infantaria 15 (Tomar), então alferes Conceição Santos conta que as munições estavam a acabar e que um avião de reconhecimento já os sobrevoava a baixa altitude, dando sinais para a artilharia germânica regular o seu fogo. Às 2 da tarde a posição é evacuada. Para trás ficaria o Murça, como Milhais era então conhecido entre os camaradas.
Mas não estava sozinho. Tinha a sua menina Luisinha, uma metralhadora ligeira Lewis 7,77 que facilmente pode ser operada por um só homem.
Na verdade, nessa fase da sua aventura na Flandres, Aníbal Milhais não usou uma, mas várias metralhadoras, revela António Guilhermino Pires, que entrevistou o soldado durante longas horas. Colocara-as em posições diferentes da trincheira e, enquanto pôde, correu de uma para a outra, em função da deslocação dos alemães. No inimigo deixou, assim, a impressão de se tratar de uma unidade inteira que ali se mantinha a resistir.

AS ORIGENS
Nascido em 1895, numa família pobre, Aníbal Augusto era o mais novo de três irmãos que ficaram órfãos bastante cedo e foram acolhidos por parentes mais próximos. Ainda criança, começou a trabalhar em casa das pessoas mais remediadas de Valongo, aldeia no concelho de Murça (desde 1924, Valongo de Milhais, em sua homenagem). Primeiro a fazer recados, depois a guardar rebanhos ou os bois, mais tarde na terra. Os irmãos, João e Maria Rosa, emigraram cedo para o Brasil. Ele ficou a trabalhar como jornaleiro.
Em 1915, é apurado para a tropa. No ano seguinte, a 13 de Maio, assenta praça no Regimento de Infantaria (RI) n.º 30, de Bragança. No mês seguinte, é transferido para o RI 19, de Chaves. Meses depois, parte para a Guerra; com a especialidade de «atirador especial». Já em França, especializa-se em metralhadoras Lewis e é integrado no BI 15, de Tomar, como n.º 1 de uma das guarnições de metralhadoras ligeiras.
Aos familiares contará, anos depois, que na véspera de ter embarcado rumo a França sonhou que estava a rezar junto da imagem da Nossa Senhora do Vale de Veigas. Nesse sonho, a santa venerada na sua terra disse-lhe para não ter medo que estaria sempre com ele.

No dia da Baltalha de La Lys viu o seu municiador e amigo, que alcunhava de Malha-Vacas, ir pelos ares, desfeito por uma granada alemã.

– Vai com Deus – balbuciou.

Leonida Milhões, a neta, recorda-o como um homem «muito religioso». E a fé terá ajudado aquele Zé Povinho analfabeto de 1 metro e 55 de altura a quem a Pátria vestiu uma farda e enfiou num navio para o servir como carne para canhão nas trincheiras da Flandres.

PERDIDO NA FLANDRES
A perícia no manejo da sua Luisinha e os ensinamentos da vida do campo, sobretudo da caça, que permitem que um homem não perca o norte, mesmo em território desconhecido, revelaram-se fundamentais, sobretudo quando Milhais teve de sair da trincheira.
Sabia que com as Lewis podia obter um efeito de surpresa tão grande que o inimigo seria incapaz de identificar imediatamente a sua posição concreta. Mas também sabia que os alemães não se deixariam enganar eternamente. Eram muitos e estavam a aproximar-se.
Anos depois, Milhais contou aos seus próximos que um grupo de alemães, enviado para fazer um reconhecimento da sua posição, chegou mesmo a aproximar-se disfarçado com fardamento de portugueses que tinham tombado. O transmontano apercebeu-se da marosca e varreu-os a tiro de metralha.
Mais tarde ou mais cedo ele teria de sair dali. A Lewis é uma arma bastante portátil que permite à sua guarnição (ou atirador único) mudar rapidamente de alvo e de posição.

Soldados portugueses e britânicos capturados pelos alemães (Fonte: Bundesarchiv)

Soldados portugueses e britânicos capturados pelos alemães (Fonte: Bundesarchiv)

Milhais recolheu, então, munições de que os camaradas mortos já não precisavam e pôs-se a caminho pela região pantanosa. Como mantimentos dispunha de umas amêndoas da Páscoa que a família lhe enviara.
Dias antes, relata Guilhermino Pires, o Malha-Vacas ainda se terá virado para o Murça e dito:

– Guarda bem essas amêndoas que ainda te vão fazer falta.
– Tomara que não me faltem amêndoas para esta menina [a metralhadora] – respondeu.

Andou perdido pela planície devastada e alagada. Escondeu-se nas ruínas, nos drenos cheios de água ou nas carcaças de cavalos, para evitar as tropas alemãs.
Mas, quando se proporcionava, procurava a melhor máscara para emboscá-las e varrê-las em leque. Foi assim, escondido, que salvou um grupo de escoceses de serem capturados, disparando sobre os alemães que o perseguiam.
Andou nisto de 9 a 13 de Abril. Sem abrigo, sem alimento, sem água e sem dormir, a remexer nos bolsos dos camaradas mortos à procura de munições ou, simplesmente, fechando-lhe os olhos.
No último dia, salva de se afogar nas águas do Lys um major escocês que fora feito prisioneiro pelos alemães mas conseguira escapar. Partilha com ele as suas últimas amêndoas e este ajuda-o a orientar-se para encontrar o acampamento português. Terá sido também nesse último dia do seu périplo que, segundo o registo escrito de uma filha, Maria Adelaide Milhais, resgatou uma criança dos escombros de uma casa destruída.

O MURÇA PASSA A MILHÕES
Ao chegar, exausto e coberto de lama, ao posto dos portugueses, a sua fama já o precedera. Os soldados escoceses tinham feito constar aos seus aliados que estava a caminho alguém que salvara vários dos seus e havia também um relato do major. O seu anterior comandante de batalhão, o então major João Maria Ferreira do Amaral, chamou-o para o ouvir pessoalmente.
E, reza a lenda, ter-lhe-á dito:

– Chamas-te Milhais, mas vales milhões.

A alcunha pegou e não foi só na tropa, onde o Murça passou a Milhões. Transitou até para alguma documentação oficial, como o decreto de 31 de Agosto de 1918, confirmando a sua condecoração com a Torre e Espada, onde é dado como «Aníbal Augusto Milhões».
«O meu pai nunca mudou o apelido para Milhões», esclarece a filha mais nova, Leonida (tia da homónima anteriormente citada). Mesmo assim, aquando do registo, vários dos filhos de Aníbal Augusto e Teresa Milhais ficaram com a alcunha do pai como apelido. «Dependia da pessoa que estava no registo.» Celebrado como herói, Milhões regressa a Valongo em 1919, casa e tem filhos ao todo teve 13, dos quais 11 rapazes. Mas só cinco filhos e as duas filhas lhe sobreviveram.

DE VALONGO PARA O BRASIL
Começou por ganhar a vida com «bois ao ganho» isto é, alimentava, tratava e utilizava os animais que outra pessoa com mais dinheiro comprara; quando eram revendidos, dividia-se o lucro. Revelou-se um mestre nas enxertias e na matança dos porcos, para as quais era permanentemente chamado.
A vida no campo era dura e pobre. Tentou emigrar para o Brasil, onde chegou em Março de 1928 tinha três filhos e vinha outro a caminho. Queria só ganhar o suficiente para uma casinha na sua aldeia. Chegado lá, os conterrâneos de Murça ficaram indignados: um herói nacional não podia trabalhar fora da sua Pátria. Fizeram uma coleta que rendeu 547 escudos, pagaram-lhe a viagem e, em agosto, mandaram-no embora.
Milhões manifestou muitas vezes o seu desencanto com essa situação. Regressado à aldeia, construiu a sua casinha e tornou-se uma figura respeitada. Pediam-lhe conselhos e para ser padrinho dos filhos.
A Pátria não se esqueceu do seu cavaleiro da Ordem de Torre e Espada: exibiu-o, antes e durante o Estado Novo, em cerimónias em que era preciso exaltar os valores nacionais. E lá aparecia ele com a farda da Legião Portuguesa e as suas seis condecorações ao peito, fosse em Lisboa, no Porto, na Batalha ou em Castro Verde.
O reconhecimento material da nação resumiu-se a uma pensão que se manteve nos 15 escudos por mês, pelo menos até o seu quinto filho ir à inspeção militar, no início dos anos 50. Quando morreu, a 3 de Junho de 1970, aos 75 anos, as suas medalhas conquistadas no campo da glória valiam-lhe pouco mais de mil escudos mensais.
A neta Leonida diz que não foi pelas medalhas e honrarias que o avô que conheceu de olhos vivazes, a cantarolar muito e a tocar gaita-de-beiços, se deixou ficar em Huit Maisons: foi por uma grande consciência do dever e por um grande altruísmo.

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